quarta-feira, julho 24, 2013

Laila

''Animais são anjos disfarçados, mandados à terra por Deus para mostrar ao homem o que é fidelidade''

Quando tive a oportunidade de ir, por primeira vez, conhecer minha sogra, que mora em uma cidade próxima a minha, conheci também a Laila. Quando cheguei a casa, ainda admirada com o belo jardim que a senhora cultivava, e também logo após os tímidos cumprimentos a dona da casa, percebi que uma linda cocker spaniel me cheirava. 

Encantada com ela me abaixei e a chamei para fazer-lhe um carinho, porém, o máximo que ela fazia era se aproximar para me cheirar se afastando logo em seguida para seguir me observando a distância. A dona da casa, me confidenciou que estava surpreendida com fato de Laila não ter latido para mim, ela latia para todos. Mas o que ficou bastante claro para mim, nesse primeiro encontro, foi o fato de que Laila era o tipo de cadelinha que tem que ter o carinho conquistado.

Na segunda vez que voltei a casa de minha sogra, novamente tentei me aproximar de Laila. A chamava e me agachava, incentivando-a a se aproximar. Porém, apesar da minha tentativa de fazer amizade ela só me observava sem se deixar acariciar. Ela até abanava o rabinho, demonstrando sinais de simpatia, porém, não de uma amizade.

Um tempo depois, quando novamente tive a oportunidade de visitar minha sogra, já estava convencida de que Laila era o tipo de animal que se demora a conquistar a confiança e  que portanto levaria um longo tempo até que ela me permitisse tocá-la.

Nessa viagem, em uma manhã, tive uma discussão com meu namorado. Contrariando minha natureza chorona, segurei as lágrimas. Com o passar das horas, a irritação ia cedendo, mesmo assim ainda me sentia inquieta. A tarde, após o almoço, ainda me sentindo sufocada, decidi dar uma volta pelas ruas próximas, necessitava  me distrair, desfazer aquelas más impressões. 

No meio do caminho, encontrei uma pequena livraria e fui atendida por um senhor muito atencioso a carismático. Conversamos por um tempo a após comprar alguns livros, voltei para casa.

Ainda me sentindo agoniada pela situação ocorrida na manhã, decidi ficar no jardim lendo um pouco. Me sentei num cantinho do jardim. Percebi que ainda me sentia magoada. Nesse momento então, certificando-me que me encontrava sozinha, não contive mais as lágrimas e as deixei que escapassem livremente.

Acredito que permaneci mais ou menos uma hora, sentada no jardim chorando. Quando a Laila (que também estava no jardim dormindo) me notou chorando começou a latir. Pela primeira vez latiu para mim. Pedi a ela que não o fizesse, pois acordaria minha sogra que descansava na sala. Porém ela continuou latindo e eu permaneci sentada, deixando as lágrimas saírem, escutando-a latir. Em certo momento, ela percebendo que não conseguia com os latidos, desviar minha atenção para que parasse de chorar, se aproximou lentamente e sentou pertinho de mim.

Eu ainda me encontrava com a cabeça baixa quando a escutei chorar também. Assustada ergui a cabeça e a olhei. Ela também estava chorando! Fiquei por alguns segundos olhando para ela. Fiquei tão pasma com a cena que parei de chorar, inacreditavelmente a Laila também... Como estava próxima a mim, passado o susto inicial, a chamei, e nesse momento, por primeira vez, ela me permitiu que a acariciasse. Me senti muito emocionada com a cena. Enquanto acariciava seu pelos delicadamente, Laila me olhava docilmente.

Na verdade eu não sei exatamente o que aconteceu naquele dia, me pergunto se a Laila teria notado minha tristeza e demonstrado solidariedade. Seria possível isso? Só sei que depois desse momento, entre nós duas nasceu uma amizade.

Alguns minutos depois desse fato minha sogra apareceu no jardim, me procurando para lanchar. Percebeu minhas lágrimas, porém eu as neguei. Não queria que ela soubesse, não por nenhum motivo especial, mas porque não queria preocupá-la com aquele tema. E o namorado? Fizemos as pazes naquele mesmo dia. Não comentei com ninguém o ocorrido com Laila, talvez por medo de que ninguém acreditasse, na verdade não importava muito isso, meu coração sabia bem o que havia acontecido.

Nem sempre na vida vivemos um mar de rosas, mas com certeza a vida, mesmo em meio a tristeza, sempre dá um jeitinho de nos mostrar que nunca estamos sós, só precisamos estar mais atentos aos sinais. Muitas vezes em pequenos gestos podemos encontrar (gerar) grandes emoções, e lembranças especiais que sempre levaremos em nossos corações.

Já fazia tempo que eu tinha um olhar diferente sobre os animais nossos irmãozinhos menores, para mim nunca os considerei somente animais. Porém, são esses pequenos acontecimentos que fazem a ter uma certeza muito maior de que eles são verdadeiros presentes de Deus, anjos em nossas vidas.