segunda-feira, dezembro 01, 2014

Três anos


Oi, oi, oi, bariamiga(o)s!

Como estão as coisas por aí?

Por aqui as coisas andam meio em preto e branco. São os altos e baixos naturais da vida. Mas o post hoje é para falar dos 3 anos cirurgia que completei em outubro. Tá certo, tá meio passada a data mas queria falar dela com vocês.

Minha vida mudou bastante, sempre falo isso para vocês. Sou muito grata a Deus por ter permitido um dia acordar, ver que não queria mais ser aquela Raquel e agir, fazer acontecer.

É uma mudança tão profunda que ela vai desde a quantidade e a qualidade da alimentação até as coisas mais pequenas como cruzar as pernas ou comprar roupas sem serem de tamanho extra especial. De repente você se pega fazendo coisas corriqueiras e comuns que para a grande maioria das pessoas, mas que tem um significado mais que especial para nós que enfrentamos a obesidade. Isso mexe demais conosco.

O que posso falar desse três anos? As vezes eu quase me esqueço que um dia operei. Só o que me faz lembrar a cirurgia são pelanquinhas (ou "onas") que vejo todos os dias no espelho. 


Como é minha alimentação? E o peso? Eu como de tudo e meu reganho de peso é cíclico. Tem fases da minha vida que a ansiedade faz minha alma gorda ressurgir, botar as garrinhas de fora e eu (apesar de não conseguir comer grandes quantidades) engordo. Mas basta uma olhada no espelho para o desespero tomar conta de mim. Corro para a balança para confirmar. Confirmada a suspeita entro em pânico  e fecho a boca. O peso volta ao normal em pouco dias. O peso sempre oscila entre 2 ou 3 quilos, não mais que isso. 

São nesses momentos que descobrimos que cirurgia não é mágica, que obesidade é doença crônica e que devemos sempre buscar andar na linha ao máximo. Não precisamos ser neuróticos mas definitivamente não dá para relaxar o barraco.


O balanço geral que faço desses 3 anos é muito positivo. Mas eu gostaria de falar uma coisa para aqueles que pensam em fazer ou que já fizeram a cirurgia e tenham problemas com baixa auto-estima. Cuide disso. Cuide dessas feridas pois mesmo magrinhos e exteriormente lindos essas feridinhas ficam refletindo negativamente em vários aspectos de nossas vidas. Aprenda a se gostar! Aprenda a se olhar com amor, a ter paciência e carinho consigo, a ver toda a sua potencialidade que está só esperando ser trabalhada e desenvolvida. Não é papo de auto ajuda não, longe disso. Digo por experiência própria. 

Passar pela experiência da gastroplastia é pura transformação. Se você, depois de pesar os prós e os contras, decidiu seguir esse caminho saiba que não é fácil. Mexe profundamente com toda nossa vida, existirão algumas pedras no caminho. É mudar, mudar, mudar e mudar. Mas é válida, muito mesmo. 

Assim: 
primeiro: acredite em você; 
segundo: escute sempre sua equipe, faça tudo o que ele recomendam e se prepare psicologicamente porque a parada é dura;
terceiro: curta cada conquista, sorria, celebre. 


sexta-feira, novembro 07, 2014

O vendedor de aventais

Uma experiência real, ocorrida hoje que gostaria de dividir com vocês.
Hoje quase toda minha família se reuniu na casa de meus pais na hora do almoço. Após almoçarmos nos sentamos na varanda para prosear um pouco. Fazia um intenso calor naquele horário, um pouco após as 13h. Foi nesse contexto que vi, um homem descendo a rua, cantando alegremente. Cantando alguma música que não pude identificar, ele parou em frente a nossa casa. Demonstrando claros sinais de alegria e também uma simpatia cativante explicou que estava vendendo aventais. O motivo? Estava se tratando de um câncer e em meio ao tratamento vendia os aventais para auxiliar a renda da família. Mesmo sem ser interrogado, tentou demonstrar a veracidade de sua afirmação, retirou o boné e nos mostrou marcas de cirurgia recente, testemunho incontestável da luta que atravessava. Todos ficamos calados, acredito que mergulhados em graves reflexões. E foi em respeito ao esforço, em respeito a alegria e em respeito a lição que estávamos recebendo naquele momento daquele homem, que o avental foi adquirido.

Nós, muitas vezes, temos o hábito de reclamar da vida, eternos insatisfeitos, acreditando-nos sempre vítimas ou injustiçados, incapacitados ou infelizes. Mas basta parar só por um minuto e prestar atenção ao ocorre ao nosso redor, nas lutas e provações que nosso próximo atravessa, em sua dor. Um homem em meio a uma batalha com um câncer, recém operado, estava alegremente, sob um sol escaldante trabalhando para contribuir de alguma maneira com o sustento e bem estar de sua família. Reclamação? Ele não tinha tempo, ele estava ocupado demais, agradecido demais, alegre demais para pensar em murmúrio. Para o momento que estou vivendo, Deus não poderia me dar mais bela lição.

sexta-feira, abril 25, 2014

O abraço do esquecimento

Não sei dizer exatamente quando ele decidiu te acompanhar mais de perto. As vezes quando me ponho a pensar sinto que já faz um certo tempo, mas nós não percebemos. Ainda não compreendo porque ele decidiu vir para ficar, não poderia ser só mais uma visita? Para ser sincera, acho que talvez nunca entenda. 

É tão difícil ver ele se fazendo presente cada vez mais em sua vida. Você sofre? Essa é minha maior preocupação... Sabe a pior parte? Não posso fazer nada para que ele vá embora. Quanta impotência sinto.

Mas sabe, pai, de agora em diante, toda vez que ele se fizer mais presente em seus dias eu também me farei. Eu sei que será uma luta desigual, ele te envolve progressivamente e inevitavelmente. Mas isso não me desanima, nem àqueles que te amam. E ele pode até te fazer esquecer de mim, de nós... Mas eu estarei contigo, segurando sua mão. 

Lembra quando eu era pequenininha e o sr. chegava do trabalho, ligava a tv para poder acompanhar o jornal, se sentava em sua poltrona, pegava seus processos e ia estudá-los? E lá vinha eu, toda tagarela, para conversar. Blá, blá, blá... Acho que a prosa era boa, ela sempre me rendia a permissão para pentear seus cabelos, e ir mais além, até prender xuxinhas neles. Ficava horroroso, pai. Definitivamente as xuxinhas eram para meus cabelos não para os teus... Quando penso nesses momentos eu me pergunto o que acontecia com toda a sua seriedade. Talvez detrás dela houvesse um coração enternecido. São tantas lembranças. Tem as ruins também, mas essas vão ficar ofuscadas por todas as boas. O bem é sempre assim, pai, ele sempre se sobressai. 

É tão doloroso saber que o sr. vai me esquecer. Quantas lágrimas só de imaginar isso. É pai, o sr. talvez não tenha lucidez para me ver casar ou conhecer seus netos. Talvez o abraço do esquecimento seja forte demais e o sr. não me veja alcançar meus sonhos. Mas tenha certeza, pai, que o sr. estará presente em todos esses momentos em meu coração e enquanto eu puder estarei contigo. Se o alzheimer te dá um abraço de esquecimento, eu te dou meu abraço de amor.

Raquel







quinta-feira, abril 24, 2014

Quando precisamos nos reconstruir

Já perceberam que em nossas vidas existem coisas que podem ser reformadas e existem outras que só podem ser reconstruídas? Já notaram como muitas vezes tentamos ao máximo dar um jeitinho e queremos reformar aquilo que deve ser reconstruído? 

Isso ocorre em nosso mundo interior também. Muitas vezes tocamos vários anos de nossas vidas com pequenas reformas, que disfarçam e até impedem momentaneamente a estrutura ruir, mas infelizmente chega um momento em que elas não dão mais conta de sustentar tudo que desaba. E aí só nos resta enfrentar ou enfrentar, reconstruir. E vou confessar para vocês, ver tudo em ruínas é um momento terrivelmente assustador... 

Passei 32 anos da minha vida sendo cobrada demais, desmerecida demais, desacreditada demais, julgada demais, abandonada demais, anulada demais. Meninas, como não ser gorda assim? E eu nem percebi. Achava que a origem da dor era a obesidade, quanto engano. A obesidade era consequência. E quando ela se foi, aquela dor ainda estava lá. Ainda está aqui. 

É um peso grande demais de desamor próprio e eu nem posso dizer a vocês o quanto isso dói. Eu acreditei em tudo de ruim que disseram... Mas não quero mais levar isso comigo. Se me desfiz de 52 quilos também posso me desfazer dessa dores. Quero deixar tudo isso lá atrás, curar essas feridas. Quero aprender a me olhar de uma maneira bem diferente, com mais amor, mais carinho e acolhimento. Espero poder me desfazer de todo esse lixo mental, me reconstruir.

Certa vez, li em algum lugar que nós adoecemos (depressão, ataque de pânico, ansiedade, etc) não porque somos fracos, mas porque passamos tempo demais tentando ser fortes. Nós somatizamos essas dores que insistimos em esconder, em fingir que elas não estão ali. Estou passando por isso agora, e é  por isso que decidi escrever esse post, é mais um desabafo, desculpem.

 Estou em tratamento, no início. Imagino que ele será longo. Mas não estou com pressa, não tenho compromisso com ela, só tenho um compromisso gigante com minha paz.

Raquel 




terça-feira, fevereiro 18, 2014

Os vestidos

A maioria das pessoas que acessam meu blog tem problemas com a balança, com a comida. Ao menos eu acredito que uma pessoa magrinha não teria interesse em ler o conteúdo de um mundo que me parece bem distante do dela. Só quem passa ou já passou por problemas com o peso vai entender ou se identificar com a história que contarei aqui. Só para esclarecer é real, faz parte da minha história.

Já contei aqui que sou obesa desde a infância, então eu nunca tive a experiência de comprar uma roupa de tamanho "normal". Quando contava com 10 anos já não usava mais roupas dessa idade, usava um tamanho bem maior. Nessa época já enfrentava a frustração de escutar 'não tem seu tamanho". O pavoroso, '"não cabe". Ao menos não o que eu gostava ou o que cabia nas minhas amiguinhas da mesma idade.

Os anos passaram e a obesidade me acompanhou até a adolescência, depois quando fiquei adulta e o problema parecia não ter solução. Era um ciclo,  alguns meses suados de dieta, alguns quilos perdidos e depois vários anos com com o dobro do peso que havia perdido.

Mas foi num dia qualquer que essa história que divido com vocês começa. Eu estava com minha mãe num comércio próximo a minha casa quando me deparei com uma lojinha que vendia roupas. Eu sempre amei vestido e mexendo nas araras vi dois que me encantaram, fiquei apaixonada. Mas só de olhá-los na arara percebi que não cabiam em mim. 

Não sei o que me deu, mas a primeira coisa que pensei foi: vou comprar. Comentei com minha mãe e ela me disse o obvio: não cabem em você. Retruquei: vou fazer dieta. Ela mesmo meio descrente me presenteou com os vestidos. 

Mas eu não consegui fazer a dieta e os vestidos ficaram no armário. Quando íamos arrumar o armário para fazer a doação de roupas que não usávamos mais, minha mãe sempre coloca os dois vestidos no meio. Eu os retirava e dizia a ela: ainda vou usá-los. Os anos passaram e eu não emagreci e nem os usei. Mas não sei o porque também não conseguia doá-los. 

Com 30 anos fiz a cirurgia, alguns meses depois mexendo no armário eu vi os vestidos. Meu Deus, eles ainda estavam ali. Eles de alguma forma representavam uma esperança, um sonho de vestir por primeira vez uma roupa que eu realmente eu gostei. A esperança de alguma poder me superar, ser maior que meu problema.

Não me lembro exatamente em qual mês (depois de operada) os encontrei e passei a experimentá-los. Nos primeiros meses não cabiam, faltava muito para fechar. Mas a cada mês faltava menos e era uma emoção tão diferente que eu sentia por perceber isso. E foi também, num dia comum, mas que eu não consigo esquecer que eles couberam, apertados mas couberam. As lágrimas não puderam deixar de cair. 

Ninguém acreditava que eu vestiria aqueles vestidos, que eu emagreceria. Acho que no fundo nem eu achava mais isso possível. E vesti-los foi a realização de um sonho. O tempo passou e vestidos ficaram largos, que ironia. Um deles ainda é um dos meus favoritos. É uma gostosa sensação poder eliminar barreiras e alcançar obstáculos. É gratificante. A batalha é longa e a guerra contra obesidade não se vence, apesar de se poder controlar e isso é o mais importante.

Quem se deu o trabalho de ler essas linhas mal escritas eu tenho uma coisa a te dizer: acredite em você. Se agarre a seus sonhos. Eles podem ser desde um sonho bobo de caber num vestido ou podem ser maiores, não importa, acredite neles. Tenha fé, tenha paciência, a vida se dá aos poucos e as conquistas também. Seja Pela RA, seja pela cirurgia, acredite sempre em você, em algum lugar aí dentro tem o grande poder de superação.

Seus sonhos podem até estarem adormecidos, os meus ficaram anos a fio, mas eles estão aí, dentro de você, guardadinhos, esperando o medo ir embora para eles novamente tocarem seu coração e  te mostrar que eles podem  e vão ser alcançados, depende de ti. 

Raquel
Só para atualizar
2 anos de operada. Antes 120 kg. Atualmente meu peso normal é 69 kg. Nessa foto 71 kg (dá um desconto, estava de férias, rsrs)
Ainda não fiz plásticas, dá para notar, né? (mas vou fazer, rsrs)
Notaram o naipe do cabelo? Cuidado ao visitar Bonito, a água de lá faz miséria no seu cabelo. Não tem misericórdia, rsrs.