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sábado, dezembro 31, 2016

Dia 31



Hoje é dia 31 de dezembro de 2016. Falta poucas horas para o ano acabar. Estou sentada no sofá da minha esperando minha família chegar para uma pequena reunião. Esse ano as batalhas foram muitas e as mudanças também. 

Nós que já estávamos batalhando com a demência de meu pai há mais ou menos 3 anos, agora estamos lidando com um câncer em minha mãe. Soubemos agora, no início de dezembro. 

A primeira reação foi de desespero, mas com tempo as coisas estão se encaixando e o coração tá começando a se acalmar. A batalha sem dúvida alguma é grande, mas a disposição também. Então, depois das lágrimas veio a força, nem sei bem de onde.

Com o diagnóstico de minha mãe, a minha cirurgia teve que ser adiada indeterminadamente. Os exames estavam prontos, só estava fazendo uso de noripurum por causa da anemia. Não me queixo, definitivamente minha mãe é infinitamente mais importante.

Esse ano foi realmente um ano duro, mas também foi um ano de recomeço. Fui para o terceiro semestre de minha nova graduação com o coração cheio de alegria e gratidão. Eu me encontrei. Demorei, mas me achei e tô super feliz.

Nesse ano aprendi a real importância de saber dizer não. Então, deixei coisas, lugares e pessoas no passado. E descobri que hoje eu me gosto bem mais e as pessoas que convivem comigo já me falam abertamente como mudei.

Mudei tanto que até fiquei loira. E sinceramente estou adorando. Morro de ri quando um guri na rua me chama de loirinha. O coração, sossegado, tá feliz, ele descobriu que tudo que custe a paz dele é caro demais. Então encontrou um outro coração em paz. E a paz tá multiplicada.

Desejo a todos que acompanham o blog um 2017 incrível. As batalhas sempre existirão, para todos nós, fazem parte da vida. Mas nossa garra também existe e vamos cultivá-la. Nem sempre é fácil, mas é a melhor opção sempre.

Não deixem de acreditar nos sonhos, de correr atrás. A vida passa rapidinho. E bora lá, que o universo conspira a favor daquele luta pelo bem. Feliz ano novo! Toda paz sempre.



segunda-feira, outubro 17, 2016

E chegou minha hora!

Dia 20/10 completo cinco anos de bariátrica. 

Parabéns para mim! 

Estou comemorando esses cinco anos com o início de minhas reparadoras. Depois de muitas incertezas fui a uma consulta com o cirurgião plástico. Cheguei lá um pouquinho antes das 15h e saí às 17:30h. Fui muito bem recebida, fotografada (credo!) e orientada. Finalmente decidi, vou fazer.

As minhas reparadoras serão feitas em duas etapas. A primeira será abdômen, glúteo e pernas. E a segunda, após seis meses, será seios e braços. Saí da consulta quase me acreditando um Frankenstein, mas ok, faz parte de um longo processo.

Farei pelo plano de saúde todas elas, e se tudo sair conforme o planejado, em dezembro a primeira etapa estará concluída. Eu ando bem ansiosa com isso, uma expectativa misturada a um pouco de medo.

Hoje enquanto escutava o médico, fiquei imaginando o resultado final dessa primeira etapa. As peles de barriga vão todas sumir, o bumbum será levantado e modelado, as pernas também passarão por uma retirada de pele. Será um procedimento grande, mas que me transformará muito. 

Já até imaginei como será comprar meu primeiro biquíni, ou ir a praia, cachoeira. Dá uma emoção tão grande saber que aos pouquinhos minha vida vai entrando nos eixos. Que as marcas começam a ser substituídas por outras, e que me lembrarão que caminhei um longo caminho, lutei uma grande batalha e venci.

Tenho muitos exames para fazer, tomografia, risco cirúrgico, raio-x, exames de sangue e laudo da hematologista (por causa da anemia ferropativa) e consulta com anestesista. Maaaaas, ainda tenho que esperar as provas acabarem na faculdade para que eu possa falar com o pessoal da equipe e eles acionem o plano de saúde.

Depois disso o plano tem 21 dias para responder (autorizar), e depois de autorizado eu tenho 30 dias para operar. A recomendação da secretária do cirurgião sobre lidar com esse tempo sem se enrolar  é começar a fazer alguns exames mais enjoadinhos. E farei isso mesmo. 

No mais, nada de emagrecer mais, ordens do doutor, o que chega até ser engraçado. 

Final de novembro eu volto para contar a evolução de todo esse processo. Por enquanto vou deixando meu abraço e o desejo sincero para aquele que lê esse blog nunca desista de você, se cuida, física e mentalmente, lute, não se conforme com aquilo que te fere. Só há dois dias no ano em que você não pode fazer nada pela sua vida: ontem e amanhã.

Então vamos lá, porque se tentar viver saudável (mente, corpo e coração) dá trabalho, ser infeliz dá muito mais. 




terça-feira, setembro 06, 2016

Engolir sapo pesa na balança


Alguém por aqui acredita em destino? Aquela malha invisível e misteriosa que nos conduz a determinado caminho... Pois bem, acreditando ou não, aconteceu algo muito curioso comigo hoje e dei crédito ao sr. destino. 

Logo após o almoço dei um pulinho até a banca de revistas próxima a minha casa procurando uma caneta, quando me deparo com essa belezura. Não que a capa seja a mais atraente do mundo. Mas como diz o velho ditado, não devemos julgar o livro somente por sua capa.

O título me chamou muito a atenção, mas foi quando vi o índice que eu tive a certeza que ele estava destinado a mim. Olhem só o índice!  


A autora que é psicoterapeuta, não vem nos enfiar em modismos, ou nos apresentar fórmulas mirabolantes. A proposta dela é fazer uma busca de alguns "porquês".

Aos pouquinhos vou postando os tópicos mais legais do livro. Por enquanto fica essa dica de leitura mara. 

Anda engolindo sapinhos? Cuidado! Isso pode estar afetando no seu peso. 

quinta-feira, agosto 18, 2016

Treinamento Funcional


Já faz um tempão que estou tentando me adaptar a uma prática de exercício físico. Tentei natação, mas meu medo da água foi maior, e após seis meses desanimei.

Tentei musculação, mas achava um saco aquele ambiente pesado e neurotizado de academia.

Cogitei até fazer dança do ventre. Mas as minhas pelancas falaram mais alto. Ainda me sinto constrangida com elas.

Mas meu cirurgião sempre me cobrava isso nas consultas, a necessidade de fazer um exercício físico. Eu emagreci muito, 52 no quilo total, e sem atividade física perdi muita massa magra também, o que não é nem um pouco bom.

Em cinco anos eu fiquei totalmente sem força física, e não foi por falta de orientação médica não. 

Até que encontrei o chamado treino funcional. Só que para pagar todos os meus pecados é feito na areia; E pensem num trem intenso, mas não nego, adorei. É ao ar livre, é em grupo, as pessoas que treinam comigo são reais (não aquelas super bombadas). Os exercícios são dinâmicos, e toda semana o treino muda.

Já estou treinando a quase dois meses e já fiz cada exercício que nunca imaginei que conseguiria. Já corri até arrastando pneu, e olha que eu não conseguia correr. Simplesmente não conseguia! 

Além de descobrir que eu não sabia como correr. A treinadora me ajudou a melhorar muito meu equilíbrio e coordenação motora. 

O treino na areia é muito, muito desgastante. Termino o treino mortinha.  Mas o lado maravilhoso e que como os exercícios são muito dinâmicos, você, com o tempo, vai ganhando força, equilíbrio, flexibilidade, condicionamento e resistência.

É um treino muito indicado para quem quer emagrecer porque é puxado pra caramba e queima mesmo. Derrete tudo! Na primeira semana você fica toda dolorida. Subir e descer escadas é quase impossível, você até cogita em nunca, jamais voltar ao treino.

Mas depois a gente pensa direito, lembra de nossos objetivos e decide voltar e persistir. E vou falar para vocês, toda aula é uma superação. Pois o treino nunca é o mesmo e necessitamos sempre nos superar.

Estou lá porque preciso de força, resistência, condicionamento e é claro coordenação motora. Pensem numa serumaninha que é descoordenada. Prazer, eu!

De aspecto negativo eu só notei a relação da areia com os pés. Primeiro, inocentemente eu tentei treinar de meias, mas elas não aguentam o atrito e se desfazem. Depois desencanei e fui treinar descalço mesmo. Mas meus pés ficaram ásperos e eu não gostei. Daí uma das gurias do grupo comprou uma botinha de neoprene (aquelas que os mergulhadores usam) e parece que isso solucionou a crise. Vou comprar uma também.

Tô gostando muito e realmente indico. Só repito que é preciso querer se superar. Depois disso caímos de paixão e então viramos fã.




quarta-feira, agosto 17, 2016

Quilos Mortais


Há um tempo atrás eu conheci um programa que me chamou muito a atenção chamado "quilos mortais".

Ele conta a histórias de pessoas com super obesidade (sim, isso, mesmo) e a luta delas para recuperar suas vidas através do emagrecimento. Sim, recuperar suas vidas pois com super obesidade uma grande porcentagem delas já não consegue nem caminhar, muitas vivem presos em cima de uma cama. 

E como sofrem! É absurdo o sofrimento pelo quais passam. É muito triste a maneira como não conseguem parar de se ferir. 

Então quando elas decidem que é hora de pedir ajudar, elas conhecem um médico especialista em cirurgia bariátrica em pessoas com super obesidade. Na maioria das vezes, elas tem a ajuda de uma equipe de psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas.

 Em casos mais extremos, quando a risco de morte é muito iminente elas ficam um tempo internadas no hospital, até que o risco passe. Existem aqueles que também ficam internados para conseguirem dar início a uma dieta que possibilite uma perda de peso para que a cirurgia possar ser realizada.

Mostram a vida do pacientes antes, como ele vive, como se sente. Mostra os encontros com o médico, o início do tratamento, a cirurgia e o início das mudanças conquistas depois de uma drástica perda de peso.

O programa nos faz refletir bastante sobre a nossa relação com a comida e como podemos nos ferir com isso a ponto de sermos prisioneiros de nossa compulsão e de nosso corpo.

Sempre que vejo um episódio, me vejo muito naquelas pessoas, vejo a complexidade dos problemas envolvidos que que o obeso mórbido enfrenta.

Vou deixar um link de uma fã page do facebook que disponibiliza os episódios. O mais legal é que tem outros programas sobre obesidade lá, mas eu quero falar sobre eles em posts separados.

Para quem é obeso, pra quem tá pensando em fazer a cirurgia bariátrica e para quem já fez é um programa que pode nos ajudar enxergar com clareza a obesidade mórbida. Como ela afeta todos os aspetos de nossas vidas e pode, sem dúvidas, nos roubar muitas coisas (e nos rouba).

Olha o link aqui:
http://www.facebook.com/quilosmortais

Passa lá, veja, sinta e acima de tudo reflita muito. Um abraço!

Ah! Um abraço ao dono da página, que só posta os vídeos lá com a intenção de ajudar as pessoas a reconhecerem uma situação tão perigosa e a pediram ajuda o quanto antes.



quinta-feira, agosto 04, 2016

Não se abandone jamais


Nunca se abandone. Nunca deixe de cuidar de si mesmo.
Esse princípio é vital, e se aplica a todas as pessoas, em todos os momentos da vida.
Mas eu queria falar mesmo era sobre as pessoas que se submetem à cirurgia bariátrica.
Um cirurgião Bariátrico em geral acompanha seus pacientes por muitos anos, eu tenho muitos pacientes que já acompanho por mais de 15 anos.
É um bom pedaço da vida da pessoa dividindo comigo muitas experiências.
Encontros, desencontros, realizações, alegrias, sofrimentos, ganhos, perdas, sucessos,fracassos, enfim, tudo que faz parte da vida. 
A gente ouve, aconselha, trata, corrige rumos, ajuda, ou pelo menos tenta não atrapalhar, se alegra junto e às vezes fica triste junto.
Não há nada que me deixe mais desanimado e triste do que ver um paciente se abandonar.
Como pode ser esse abandono, essa falta de cuidado consigo mesmo?
A cirurgia bariátrica muitas vezes foi decidida como o último recurso para tratar um problema, que estava sem controle e provocando muita dor e sofrimento físico, social e psíquico.
Mas, apesar de ser muito eficaz, ela exige cuidados especiais, exige sacrifícios.
Nós modificamos um sistema digestivo aparentemente normal, para a pessoa perder algum excesso de peso e obter o alívio para uma série de doenças que acompanham a obesidade.
Nós não apenas causamos restrição à capacidade da pessoa comer muito, nem tão pouco causamos somente a diminuição da absorção dos alimentos.
Nós modificamos, através do procedimento cirúrgico, a maneira como funcionam todas as funções metabólicas, o apetite, a sensação da fome, a saciedade, o gasto calórico basal, a termogênese dos alimentos, a sinalização entre o tubo digestivo, seus hormônios, suas glândulas anexas e o cérebro.
Nós modificamos a forma como circulam os sais biliares e até mudamos o perfil bacteriológico da microbiota intestinal.
Todo o metabolismo dos carboidratos é alterado, produzindo melhora da secreção e da sensibilidade à insulina e consequente melhora dos níveis de glicose no sangue e curamos o diabetes.
Mas a cirurgia bariátrica exige que a pessoa use suplementos vitaminicos, faça exames e consultas periódicas e tenha hábitos de vida saudáveis, como comer alimentos nutritivos e fazer um pouco de atividade física.
Ninguém precisa ficar neurótico com a comida, viver no consultório do cirurgião, nem da nutricionista, e muito menos virar atleta, mas tem que se cuidar.
Abandonar-se, descuidar-se é deixar-se morrer.
A morte está dentro de cada uma das nossas células. Literalmente cada célula possui um vacúolo no seu interior, contendo enzimas ou água oxigenada, que pode destruir imediatamente a própria célula.
A morte também está ao nosso redor, basta prestar atenção aos perigos que nos rodeiam.
A vida também está dentro de nós, e por todos os lugares.
Nós, e cada uma das nossas células, temos que lutar o tempo todo pela vida e contra a morte.
Um paciente Bariátrico se abandona quando não toma seus suplementos e vitaminas, quando não se consulta mais com sua nutricionista, quando come porcaria que não é nutritivo e prejudica a saúde, como biscoitos e refrigerantes, quando fica sedentário e inativo e quando ingere bebida alcoólica de forma irresponsável.
O resultado desse abandono é um grande fracasso, que pode não ser temporário.
Quando a gente passa por uma fase sofrida da vida, quando sofremos alguma perda muito grande, nós temos todo o direito de ficar tristes e chorar, só não podemos nunca é nos abandonar, jamais.


Dr. Orlando Pereira Faria
Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica e responsável Técnico pela Gastrocirurgia de Brasília; graduado pela Universidade de Brasília (UNB). Fez residência no hospital universitário e especialização em cirurgia do aparelho digestivo na Universidade de Paris. Em 1999, fez curso e estágio no Instituto Garrido em São Paulo, e começou a operar em 2000, apresentando excelentes resultados e com baixíssimo índice de complicação. 

quinta-feira, junho 16, 2016

Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve.


Esse blog é de uma bariatricada (nome feio, né? rsrs), mas ele não é focado exatamente em mostrar fotos de antes/depois, apesar de ter algumas por aí. Não tenho nada contra, na verdade, adoro ver as transformações e por isso participo de alguns grupos no Facebook.

Mas ao longo dos anos o blog foi tomando uma cara mais reflexiva e o mantive assim. Enfrentar a obesidade desde a infância até os 30 anos pode realmente dar um nó na cabeça de algumas pessoas. Foi o meu caso.

Sofri diversos abusos desde a infância até a adolescência. Nunca me senti segura e cresci uma pessoa ansiosa, medrosa. Mais que isso, cresci triste e acreditando que era a pior pessoa do mundo e que nunca alcançaria nada de bom.

No primeiro ano após a gastroplastia, quando me vi livre de todo aquele peso, longe de bullying, cabendo em roupas lindas, recebendo elogios, vivendo coisas que nunca havia vivido, eu consegui esconder um pouco essa bomba relógio.


Apesae dela dar claros sinais de que iria explodir a qualquer momento. A sensação de nunca estar segura estava sempre presente, me assombrando e eu realmente não me sentia capaz de realizar nada, nadica mesmo.

Eu era uma pessoa disposta a ajudar a todos, menos a mim. Poderia ser uma boa amiga, mas não era nada amigável comigo mesmo. Queria cuidar das pessoas, mas eu mal podia cuidar a mim. 
E assim, abandonada por mim mesmo, evitando a minha própria vida, eu vivia mendigando afeto.

 As vezes eu barganhava, tentava mostrar como eu era "boazinha" e como deveria ser amada por isso. Vocês devem imaginar o que isso tipo de comportamento resulta, não é mesmo? Eu vivia um desamor, um descaso tão profundo comigo mesmo que aceitava coisas absurdas. Como se paga muito caro por isso...


E eu não entendia porque eu não conseguia sair dessa situação lastimável. Mas não conseguia, estava paralisada. Quando
 a bomba explodiu, não sobrou quase nada de mim.

Mas a vida é interessante, sempre encontramos pessoas que nos ajudam. Quando encontrei essa mão amiga, eu só sabia chorar. Isso se estendeu por um tempo bem longo. Mas não desistiram de mim, e graças a isso um recomeço foi possível.

Quanta dor podemos guardar no peito? Não dá pra saber. Quanto amor podemos carregar no peito? É imensurável. E foi isso que minha mão amiga me ensinou. E eu comecei a aprender a escolher. A primeira lição? Me escolher!

E como se faz isso? Aprendendo a olhar para nós mesmo com olhos de amor. Tendo  paciência incondicional conosco mesmo.

Gente, como é difícil essa fase, porque estamos condicionados só com a negatividade. Então,  você crê cegamente, por mais de 30 anos, só em coisas negativas e de repente você tem que nos desfazer disso para se salvar. Não existem escolhas, ou desfaz disso, ou se desfaz.

E dói fazer isso. Dói porque você vem confiante diante do espelho e diz: "Sou bonita". Mas aquela vozinha maligna que te acompanha toda sua vida diz: "Ninguém nunca vai gostar de você".

Você se inscreve num concurso e ela te diz: "Nunca vai passar". E realmente dá aquele medo Indescritível  disso ser verdade.


Uma pessoa te maltrata, você sente que algo está errado, mas quando você vai buscar meios de ajudar a si mesmo, só se escuta esse vozinha te dizer: "Você mereceu. Você sempre será tratada assim porque não tem valor algum". E a gente acredita.

Quando começamos a nos escolher, devagarzinho, e não sem muito esforço, começamos a modificar pequenos padrões. Mas só desfazer esses padrões não resolve, eles devem ser substituídos por outros, de preferência positivos. Eis aí outra luta grande! A vozinha não quer morrer, então vez por outra ela tenta aparecer, ganhar forças. A questão sempre será de escolha.



Nesse momento é que descobrimos algo que nos choca profundamente. Não existe inimigo pior do aquele que alimentamos em nós. Nós escutamos coisas ruins, enfrentamos coisas terríveis e nos apressamos em aceitar tudo. Guardamos tudo como verdade  e carregamos um monte de lixo que só causa dor.

Em que momento demos tanto poder ao outro? Quando foi que o outro se transformou num grande sabedor e julgador de nossas vidas, aquele que mais sabe sobre nossas dores, vidas, lutas, mais até mesmo do que nós? Por que devemos aceitar como verdade as coisas ruins que nos dizem?

Daí descobrimos que damos poder demais aos outros. E isso é algo extremamente perigoso. Quando passamos a fazer escolhas emocionalmente mais inteligentes as coisas começam a se modificar. Começamos a resgatar nosso poder, nossa fé, nossa luz.

Passamos a escolher o sorriso ao invés de lágrimas, paz ao invés de lutas vãs. Começamos a descobrir novos sonhos, começamos a escolher ações que nos levarão a alcançar objetivos. Começamos a criar cumplicidade com a gente mesmo e tudo isso começa a promover uma limpeza dentro da gente.



Passar vários dias chorando? Não! É mais saudável, mais gostoso, passar vários dias sorrindo. Então eu vou agir para isso. E tudo aquilo que me causa dor, eu vou escolhendo trabalhar, para que fiquem só como experiências e não como senhoras e donas de minha vida.



Foi com pequenas escolhas que comecei a colocar minha vida novamente no trilho, os cenários começaram a mudar.  Passei num concurso e estou esperando ser chamada. Fiz novos amigos e amigas, com os quais passeio, viajo, sorrio, aprendo. Iniciei uma segunda graduação, e tô feliz da vida por estar encontrando um novo caminho. Se precisar ficar sozinha, eu fico numa boa porque ocupo o tempo de maneira sadia. Eu ainda gosto de ajudar, mas procuro sempre cuidar da minha vida primeiro. 

São muitas mudanças, tantas! Mas todas elas vieram de pequenas escolhas. 

Se alguém ler esse post e sentir que nunca vai conseguir, eu queria dizer que vai sim. E não é conversa de auto-ajuda não, você tem que acreditar em ti. Depois disso, tudo pode ser alcançado.

Também queria te dizer que se respeite sempre, que sempre saiba seu valor, o seu limite. Não importa se você perdeu 30, 50, 60, 80 quilos. Se você não for teu melhor parceiro o sofrimento é que será teu companheiro. Sabe o mais duro disso tudo? Será teu companheiro com sua permissão. 

Não é mentira que o mundo bate doído na gente. Mas também não é mentira que há a escolha de se fechar na dor ou de crescer no amor. A escolha é sempre nossa, a responsabilidade também. Tenha sempre claro que não somos vítimas de ninguém, só de nós mesmos.

Não espere por ninguém, seja você o seu maior apostador. E aposte todas as suas fichas, sem duvidar nunca que irá ganhar.

Para aqueles lindos e lindas que sempre se respeitaram, se amaram, gordinhos ou não, eu deixo meus parabéns. Vocês descobriram logo que ninguém sabe mais o seu valor do que vocês mesmo.

Deixo um abraço forte e carinhoso em todos.



Para refletir!
My mad fat diary



terça-feira, janeiro 05, 2016

Desafio de aniversário - 21 dias

Quem já operou há alguns anos sabe que a cirurgia não faz mágica. Sabe que se não implementarmos definitivamente a a mudança na alimentação, não há cirurgia que nos ajude.

Pois então, Natal, Ano Novo, muita comilança e o resultado são vistos nos ponteiros da balança. 

Por isso me propus um desafio de 21 dias. Batizei de desafio de aniversário. Serão 21 dias de dieta rígida. Sem refrigerante, doces ou qualquer tipo de fritura ou bobagem. Para mim, que gosto bastante disso, será realmente um desafio. 

Para atingir a meta escolhi algo que gosto para me focar. Nesse caso foi um vestido lindão que ganhei de presente e decidi usá-lo em meu aniversário. 

Quando vesti o vestido não gostei. Não ficou feio... mas também não ficou da maneira que eu queria por causa dos quilinhos a mais. Então mãos a massa, com foco, força e fé. 

O resultado publicarei aqui no dia 25 de janeiro. 

Apesar de estar postando hoje, o desafio já foi iniciado ontem. Vou contando aqui, aos poucos, como será o processo.





quarta-feira, dezembro 30, 2015

Voltando a falar sobre o diário alimentar



O diário alimentar me foi proposto no pré operatório, como um meio para começar a me observar. Desde então já se passaram quase cinco anos. A ideia é começar a observar o que geralmente fazemos no automático: a mastigação, a quantidade e qualidade dos alimentos ingeridos, e os sentimentos envolvidos.
 

Mas essa tarefa aparentemente tão fácil pode ser bem complicada do que imaginamos. Primeiro porque ela requer total honestidade, sinceridade. Aqui não pode rolar pequena mentiras ou omissões. A intenção é nos mostrar claramente, sem rodeios ou floreios a nossa compulsão alimentar.

Tem um texto muito legal da psicóloga Luciana Kotaka que nos ensina direitinho como fazer o diário:


"Alguma vez você parou para anotar a quantidade de comida que ingeriu durante o dia? Alguns estudos científicos sugerem que anotar tudo o que se come ajuda a perder peso e não voltar a engordar.

Isso porque é uma forma bem eficiente de mostrar concretamente o que a fez engordar. Na grande maioria das vezes achamos que comemos pouco, mas ao anotar tudo o que se come, detectamos muitos erros alimentares, que aos poucos vai se somando e alterando aos poucos os ponteiros da balança.

Ao visualizarmos o que ingerimos, fica claro que a única pessoa responsável por estar acima do peso é você mesma. Mesmo você sabendo que você é o que come, anotar tem seu diferencial, cai a responsabilidade em suas mãos, e você se torna bem mais consciente do que está ingerindo.

Vamos tentar?

Escolha um local para anotar, pode ser uma caderneta, folhas de papel avulsas, caderno, computador, celular. Hoje existem alguns programas na internet que facilitam essas anotações, já lhe passando a quantidade de calorias ingeridas e sugestões.

Coloque o dia, os horários e a quantidade ingerida de cada comida. Vale colocar também as bebidas e os lanches intermediários.

Aproveite para notar seu dia, como foi, o que sentiu. Vai poder avaliar com mais critério o que comeu, onde exagerou e qual a relação dos aspectos emocionais no seu comportamento alimentar.

Vamos lá, está esperando o que para começar, a hora é agora!"

Muito legal o texto dela, né?
Agora vou contar como foi minha experiência.

Anotei durante seis dias todas as refeições que fiz, a hora que comia, o tempo que gastava em cada refeição, o que comia, a quantidade e como me sentia antes e depois das refeições.

Para mim o resultado foi positivo. O que me impressionou muito foi que ao ter que me observar, acabei descobrindo que nunca tive o cuidado (ou interesse) de me observar, vivia no automático.

Senti um choque ao tomar consciência da quantidade exata do como. Me assustei um pouco. Mas passado o choque, eu já estava tentando modificar algumas coisas que começaram a me incomodar.

Em poucos dias, quando eu ia comer alguma coisa eu parava um minuto, pensava nas coisas que já havia comido, na quantidade, tentava ter certeza que estava com fome e que aquilo que eu ia comer tinha qualidade e só depois comia. Saí do “comer automático”.

Algumas coisas que  descobri com o diário:

Anotando o tempo que se leva para ingerir as refeições você pode observar a mastigação.  É importante observar a mastigação porque ela está diretamente ligada ao sentimento de saciedade, assim, quanto mais mastigamos mais saciados nos sentimos e tendemos a comer menos. Mas vou confessar, é um saco mastigar muito, dá uma agonia danada, e até se acostumar leva um tempo.

Anotando os horários pode-se observar se você é “beslicador”, se costuma pular refeições, se passa muitas horas sem comer, etc.

Anotar a quantidade e o que se ingere te ajuda a ter noção da qualidade e das modificações que você pode fazer na quantidade.

Anotar os sentimentos antes e depois de comer é essencial porque você pode, como aconteceu comigo, descobrir que come automaticamente, por ansiedade, tristeza, e muitas vezes sem fome.  

Bom, a idéia do diário me agradou muito, me ajudou bastante, e vou continuar usando até me habituar a me observar. 

Vou deixar aqui um exemplo do diário para baixar em formato pdf. Espero que ajude. 



http://migre.me/syQbU 

sábado, abril 04, 2015

Faxina na alma

Depois de começar a fazer uma faxina nos hábitos alimentares com a ajuda da cirurgia bariátrica eu tive que fazer uma faxina psicológica também. Todas as duas exigiram de mim superação. Uma modificou meu corpo e a maneira como me vejo em frente ao espelho. O outra foi como um terremoto, desmoronou tudo, tudo foi abaixo. Mas depois tive a oportunidade de começar a me reconstruir e me reconhecer de maneira beeem diferente também. 

Sabe aquela faxina que fazemos em casa e que queremos tudo limpinho, arrumadinho? Dá um trabalhão, não é mesmo? Mas quando terminamos, mesmo cansados, ficamos contentes em poder estar num ambiente limpo e ordenado. 

É tão bom colocar aquele lixo acumulado para fora, remover o pó, lavar o que está sujo. Doar o que não usamos mais, mas que serve para o próximo. Aos pouquinhos, tudo aquilo que antes estava numa desordem vai tomando seu devido lugar e somos tocados por uma sensação de bem estar tão gostosa.

Faxinas são excelentes. Sabe aquele alimento que você não come mais depois que operou porque simplesmente ele te faz mal? Seja porque dá dumping, seja porque não cai mais bem, seja porque você não suporta mais comer aquilo, ou seja pelo simples fato de que aquilo não te serve mais? Com nossas almas, com nossas emoções é o mesmo. Não é só buscar ter um corpo magro, mas uma mente também. Não se alimentar mais aquelas emoções ruins que vivemos e que nos entopem, faxinar tudo isso.

Vamos limpando, ordenando, emagrecendo também as mágoas, os ressentimentos, a baixa auto-estima. Organizando tudo, abrindo espaço para outras coisas. É sim, quando o lixo vai embora e as demais coisas são colocas em seu devido lugar, descobrimos que existe espaço onde achávamos que não poderia existir. Legal, não é? 

O que poderíamos fazer com esse espaço? o que colocar lá? Acredito que essas nossas novas escolhas, na maioria das vezes, serão impulsionadas por nossos sonhos. Aqueles sonhos relegados ao esquecimento porque acreditávamos não haver espaço para eles.   Imagino também que depois de tanto trabalho, devemos procurar dar preferência, ao preencher os espaços, ás coisas úteis, evitando, assim, que daqui a pouco tempo nós estejamos acumulando aquele tanto de lixo novamente. 

Que nossos, 30, 40, 50, 60 quilos se despeçam de nós, mas que nos despeçamos também das mágoas e todas as situações discriminatórias, vexatórias, humilhantes, angustiantes vividas quando ainda os tínhamos. Vamos colocar tudo isso num saco de lixo, junto com todas as palavras de desânimo que nos direcionaram e as palavras maliciosas e maldosas. Vamos abrir espaço para as coisas boas.

Não dói colocar por lá um pouco de foco, uma dose de alegria, uma pitada fé, uma salpicada de amor próprio. O que dói é deixar esse lixo lá. E já que tiramos tanta coisas ruins, que o bom venha para acrescentar.

Raquel

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Hoje

Hoje eu quero uma companhia.
Não uma companhia qualquer,
Nem aquela que é tão desejada pelo coração de mulher.
Hoje eu quero a minha.

Hoje eu quero meu respeito e meu carinho.
Hoje eu quero ser minha melhor amiga e companheira.
Quero minha compreensão e minha amizade.
Hoje eu quero meu melhor abraço.

Hoje eu quero a Raquel, aquela que é filha amada do Enok e da Nôemia,
Aquela mulher que ainda é um pouco menina e que parece ser todo coração.
Aquela que é a irmã querida, que é a tia que é alegria, que é a amiga que tantas vezes é o amparo para alguém, todas só para mim.
Hoje eu quero reunidas, todas juntas numa só.
Para me lembrar que não estou só.
.
Hoje necessito de meu olhar mais carinhoso, do meu mais beijo gostoso, de minha risada mais boba, de meu carinho mais mansinho e daquela força que nunca sei se tenho, mas que sempre vem.
Hoje eu preciso de amor, de meu grande amor.

Hoje quero aquela minha alegria, quero retomar minha vida, que em algum momento deixei.
Me perdi e sofri, mas agora quero novamente sorrir, quero o melhor para mim também.
Hoje somos nós todas juntas numa só, reunidas numa grande tarefa de redescobrir quem sou.

Olhar bem fundo e resgatar meu valor, com muito amor.


Raquel de Barros

Hoje foi dia de terapia.

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Três anos


Oi, oi, oi, bariamiga(o)s!

Como estão as coisas por aí?

Por aqui as coisas andam meio em preto e branco. São os altos e baixos naturais da vida. Mas o post hoje é para falar dos 3 anos cirurgia que completei em outubro. Tá certo, tá meio passada a data mas queria falar dela com vocês.

Minha vida mudou bastante, sempre falo isso para vocês. Sou muito grata a Deus por ter permitido um dia acordar, ver que não queria mais ser aquela Raquel e agir, fazer acontecer.

É uma mudança tão profunda que ela vai desde a quantidade e a qualidade da alimentação até as coisas mais pequenas como cruzar as pernas ou comprar roupas sem serem de tamanho extra especial. De repente você se pega fazendo coisas corriqueiras e comuns que para a grande maioria das pessoas, mas que tem um significado mais que especial para nós que enfrentamos a obesidade. Isso mexe demais conosco.

O que posso falar desse três anos? As vezes eu quase me esqueço que um dia operei. Só o que me faz lembrar a cirurgia são pelanquinhas (ou "onas") que vejo todos os dias no espelho. 


Como é minha alimentação? E o peso? Eu como de tudo e meu reganho de peso é cíclico. Tem fases da minha vida que a ansiedade faz minha alma gorda ressurgir, botar as garrinhas de fora e eu (apesar de não conseguir comer grandes quantidades) engordo. Mas basta uma olhada no espelho para o desespero tomar conta de mim. Corro para a balança para confirmar. Confirmada a suspeita entro em pânico  e fecho a boca. O peso volta ao normal em pouco dias. O peso sempre oscila entre 2 ou 3 quilos, não mais que isso. 

São nesses momentos que descobrimos que cirurgia não é mágica, que obesidade é doença crônica e que devemos sempre buscar andar na linha ao máximo. Não precisamos ser neuróticos mas definitivamente não dá para relaxar o barraco.


O balanço geral que faço desses 3 anos é muito positivo. Mas eu gostaria de falar uma coisa para aqueles que pensam em fazer ou que já fizeram a cirurgia e tenham problemas com baixa auto-estima. Cuide disso. Cuide dessas feridas pois mesmo magrinhos e exteriormente lindos essas feridinhas ficam refletindo negativamente em vários aspectos de nossas vidas. Aprenda a se gostar! Aprenda a se olhar com amor, a ter paciência e carinho consigo, a ver toda a sua potencialidade que está só esperando ser trabalhada e desenvolvida. Não é papo de auto ajuda não, longe disso. Digo por experiência própria. 

Passar pela experiência da gastroplastia é pura transformação. Se você, depois de pesar os prós e os contras, decidiu seguir esse caminho saiba que não é fácil. Mexe profundamente com toda nossa vida, existirão algumas pedras no caminho. É mudar, mudar, mudar e mudar. Mas é válida, muito mesmo. 

Assim: 
primeiro: acredite em você; 
segundo: escute sempre sua equipe, faça tudo o que ele recomendam e se prepare psicologicamente porque a parada é dura;
terceiro: curta cada conquista, sorria, celebre. 


sexta-feira, novembro 07, 2014

O vendedor de aventais

Uma experiência real, ocorrida hoje que gostaria de dividir com vocês.
Hoje quase toda minha família se reuniu na casa de meus pais na hora do almoço. Após almoçarmos nos sentamos na varanda para prosear um pouco. Fazia um intenso calor naquele horário, um pouco após as 13h. Foi nesse contexto que vi, um homem descendo a rua, cantando alegremente. Cantando alguma música que não pude identificar, ele parou em frente a nossa casa. Demonstrando claros sinais de alegria e também uma simpatia cativante explicou que estava vendendo aventais. O motivo? Estava se tratando de um câncer e em meio ao tratamento vendia os aventais para auxiliar a renda da família. Mesmo sem ser interrogado, tentou demonstrar a veracidade de sua afirmação, retirou o boné e nos mostrou marcas de cirurgia recente, testemunho incontestável da luta que atravessava. Todos ficamos calados, acredito que mergulhados em graves reflexões. E foi em respeito ao esforço, em respeito a alegria e em respeito a lição que estávamos recebendo naquele momento daquele homem, que o avental foi adquirido.

Nós, muitas vezes, temos o hábito de reclamar da vida, eternos insatisfeitos, acreditando-nos sempre vítimas ou injustiçados, incapacitados ou infelizes. Mas basta parar só por um minuto e prestar atenção ao ocorre ao nosso redor, nas lutas e provações que nosso próximo atravessa, em sua dor. Um homem em meio a uma batalha com um câncer, recém operado, estava alegremente, sob um sol escaldante trabalhando para contribuir de alguma maneira com o sustento e bem estar de sua família. Reclamação? Ele não tinha tempo, ele estava ocupado demais, agradecido demais, alegre demais para pensar em murmúrio. Para o momento que estou vivendo, Deus não poderia me dar mais bela lição.

sexta-feira, abril 25, 2014

O abraço do esquecimento

Não sei dizer exatamente quando ele decidiu te acompanhar mais de perto. As vezes quando me ponho a pensar sinto que já faz um certo tempo, mas nós não percebemos. Ainda não compreendo porque ele decidiu vir para ficar, não poderia ser só mais uma visita? Para ser sincera, acho que talvez nunca entenda. 

É tão difícil ver ele se fazendo presente cada vez mais em sua vida. Você sofre? Essa é minha maior preocupação... Sabe a pior parte? Não posso fazer nada para que ele vá embora. Quanta impotência sinto.

Mas sabe, pai, de agora em diante, toda vez que ele se fizer mais presente em seus dias eu também me farei. Eu sei que será uma luta desigual, ele te envolve progressivamente e inevitavelmente. Mas isso não me desanima, nem àqueles que te amam. E ele pode até te fazer esquecer de mim, de nós... Mas eu estarei contigo, segurando sua mão. 

Lembra quando eu era pequenininha e o sr. chegava do trabalho, ligava a tv para poder acompanhar o jornal, se sentava em sua poltrona, pegava seus processos e ia estudá-los? E lá vinha eu, toda tagarela, para conversar. Blá, blá, blá... Acho que a prosa era boa, ela sempre me rendia a permissão para pentear seus cabelos, e ir mais além, até prender xuxinhas neles. Ficava horroroso, pai. Definitivamente as xuxinhas eram para meus cabelos não para os teus... Quando penso nesses momentos eu me pergunto o que acontecia com toda a sua seriedade. Talvez detrás dela houvesse um coração enternecido. São tantas lembranças. Tem as ruins também, mas essas vão ficar ofuscadas por todas as boas. O bem é sempre assim, pai, ele sempre se sobressai. 

É tão doloroso saber que o sr. vai me esquecer. Quantas lágrimas só de imaginar isso. É pai, o sr. talvez não tenha lucidez para me ver casar ou conhecer seus netos. Talvez o abraço do esquecimento seja forte demais e o sr. não me veja alcançar meus sonhos. Mas tenha certeza, pai, que o sr. estará presente em todos esses momentos em meu coração e enquanto eu puder estarei contigo. Se o alzheimer te dá um abraço de esquecimento, eu te dou meu abraço de amor.

Raquel







quinta-feira, abril 24, 2014

Quando precisamos nos reconstruir

Já perceberam que em nossas vidas existem coisas que podem ser reformadas e existem outras que só podem ser reconstruídas? Já notaram como muitas vezes tentamos ao máximo dar um jeitinho e queremos reformar aquilo que deve ser reconstruído? 

Isso ocorre em nosso mundo interior também. Muitas vezes tocamos vários anos de nossas vidas com pequenas reformas, que disfarçam e até impedem momentaneamente a estrutura ruir, mas infelizmente chega um momento em que elas não dão mais conta de sustentar tudo que desaba. E aí só nos resta enfrentar ou enfrentar, reconstruir. E vou confessar para vocês, ver tudo em ruínas é um momento terrivelmente assustador... 

Passei 32 anos da minha vida sendo cobrada demais, desmerecida demais, desacreditada demais, julgada demais, abandonada demais, anulada demais. Meninas, como não ser gorda assim? E eu nem percebi. Achava que a origem da dor era a obesidade, quanto engano. A obesidade era consequência. E quando ela se foi, aquela dor ainda estava lá. Ainda está aqui. 

É um peso grande demais de desamor próprio e eu nem posso dizer a vocês o quanto isso dói. Eu acreditei em tudo de ruim que disseram... Mas não quero mais levar isso comigo. Se me desfiz de 52 quilos também posso me desfazer dessa dores. Quero deixar tudo isso lá atrás, curar essas feridas. Quero aprender a me olhar de uma maneira bem diferente, com mais amor, mais carinho e acolhimento. Espero poder me desfazer de todo esse lixo mental, me reconstruir.

Certa vez, li em algum lugar que nós adoecemos (depressão, ataque de pânico, ansiedade, etc) não porque somos fracos, mas porque passamos tempo demais tentando ser fortes. Nós somatizamos essas dores que insistimos em esconder, em fingir que elas não estão ali. Estou passando por isso agora, e é  por isso que decidi escrever esse post, é mais um desabafo, desculpem.

 Estou em tratamento, no início. Imagino que ele será longo. Mas não estou com pressa, não tenho compromisso com ela, só tenho um compromisso gigante com minha paz.

Raquel 




terça-feira, fevereiro 18, 2014

Os vestidos

A maioria das pessoas que acessam meu blog tem problemas com a balança, com a comida. Ao menos eu acredito que uma pessoa magrinha não teria interesse em ler o conteúdo de um mundo que me parece bem distante do dela. Só quem passa ou já passou por problemas com o peso vai entender ou se identificar com a história que contarei aqui. Só para esclarecer é real, faz parte da minha história.

Já contei aqui que sou obesa desde a infância, então eu nunca tive a experiência de comprar uma roupa de tamanho "normal". Quando contava com 10 anos já não usava mais roupas dessa idade, usava um tamanho bem maior. Nessa época já enfrentava a frustração de escutar 'não tem seu tamanho". O pavoroso, '"não cabe". Ao menos não o que eu gostava ou o que cabia nas minhas amiguinhas da mesma idade.

Os anos passaram e a obesidade me acompanhou até a adolescência, depois quando fiquei adulta e o problema parecia não ter solução. Era um ciclo,  alguns meses suados de dieta, alguns quilos perdidos e depois vários anos com com o dobro do peso que havia perdido.

Mas foi num dia qualquer que essa história que divido com vocês começa. Eu estava com minha mãe num comércio próximo a minha casa quando me deparei com uma lojinha que vendia roupas. Eu sempre amei vestido e mexendo nas araras vi dois que me encantaram, fiquei apaixonada. Mas só de olhá-los na arara percebi que não cabiam em mim. 

Não sei o que me deu, mas a primeira coisa que pensei foi: vou comprar. Comentei com minha mãe e ela me disse o obvio: não cabem em você. Retruquei: vou fazer dieta. Ela mesmo meio descrente me presenteou com os vestidos. 

Mas eu não consegui fazer a dieta e os vestidos ficaram no armário. Quando íamos arrumar o armário para fazer a doação de roupas que não usávamos mais, minha mãe sempre coloca os dois vestidos no meio. Eu os retirava e dizia a ela: ainda vou usá-los. Os anos passaram e eu não emagreci e nem os usei. Mas não sei o porque também não conseguia doá-los. 

Com 30 anos fiz a cirurgia, alguns meses depois mexendo no armário eu vi os vestidos. Meu Deus, eles ainda estavam ali. Eles de alguma forma representavam uma esperança, um sonho de vestir por primeira vez uma roupa que eu realmente eu gostei. A esperança de alguma poder me superar, ser maior que meu problema.

Não me lembro exatamente em qual mês (depois de operada) os encontrei e passei a experimentá-los. Nos primeiros meses não cabiam, faltava muito para fechar. Mas a cada mês faltava menos e era uma emoção tão diferente que eu sentia por perceber isso. E foi também, num dia comum, mas que eu não consigo esquecer que eles couberam, apertados mas couberam. As lágrimas não puderam deixar de cair. 

Ninguém acreditava que eu vestiria aqueles vestidos, que eu emagreceria. Acho que no fundo nem eu achava mais isso possível. E vesti-los foi a realização de um sonho. O tempo passou e vestidos ficaram largos, que ironia. Um deles ainda é um dos meus favoritos. É uma gostosa sensação poder eliminar barreiras e alcançar obstáculos. É gratificante. A batalha é longa e a guerra contra obesidade não se vence, apesar de se poder controlar e isso é o mais importante.

Quem se deu o trabalho de ler essas linhas mal escritas eu tenho uma coisa a te dizer: acredite em você. Se agarre a seus sonhos. Eles podem ser desde um sonho bobo de caber num vestido ou podem ser maiores, não importa, acredite neles. Tenha fé, tenha paciência, a vida se dá aos poucos e as conquistas também. Seja Pela RA, seja pela cirurgia, acredite sempre em você, em algum lugar aí dentro tem o grande poder de superação.

Seus sonhos podem até estarem adormecidos, os meus ficaram anos a fio, mas eles estão aí, dentro de você, guardadinhos, esperando o medo ir embora para eles novamente tocarem seu coração e  te mostrar que eles podem  e vão ser alcançados, depende de ti. 

Raquel
Só para atualizar
2 anos de operada. Antes 120 kg. Atualmente meu peso normal é 69 kg. Nessa foto 71 kg (dá um desconto, estava de férias, rsrs)
Ainda não fiz plásticas, dá para notar, né? (mas vou fazer, rsrs)
Notaram o naipe do cabelo? Cuidado ao visitar Bonito, a água de lá faz miséria no seu cabelo. Não tem misericórdia, rsrs.